É só isto, e nada mais.

Hoje eu disse NÃO e sei que quem torce por mim vai se orgulhar, nem que seja só um pouquinho. Estou farta de ser profissionalmente desrespeitada e dia desses conversando com uma amiga, falei que não faria mais o MEU TRABALHO de graça (ou quase de graça).

E quando disse isso, não foi me referindo aos inúmeros trabalhos, dicas e consultorias que presto para AMIGOS (pagantes ou não). Isso é outro assunto que passa pelo coração. Aliás, as bolsas e coisas do reino também ficam noutra prateleira afetiva.

Investi longos anos da minha vida estudando, pesquisando e investindo apaixonadamente no meu trabalho de criadora. Me formei num dos melhores cursos de design desse país (o da UFPE), com mestres que só me dão orgulho, que resistem a exploração e salários ridículos para ensinar o que sabem com generosidade e afinco. Tenho quase vinte anos de trabalhos realizados nas mais diversas áreas. E sou péssima divulgadora de mim mesma. Sempre dispensei o glamour, preferindo minha parte em dinheiro.

Hoje, me recuso a dar uma ideiazinha de graça pra essa gente que acha que pra mim é fácil, simples, não custa nada e nem sequer pensa por um segundo em pagar o que é justo ou até, se for o caso de realmente não ter dinheiro algum para este investimento, sugerir uma troca ou parceria honesta.

Voltei revoltada de uma reunião para um possível trabalho hoje, quando ouvi da cliente que ela estava “cotando” com outros profissionais e gostaria de ver três idéias minhas para o trabalho que queria, antes de contratar os meus serviços. E não era cliente pé de escada não viu?! Mas eu deixei de ser besta.

Inspirada pelo maravilhoso post da Sócia da Light, resolvi também escrever e dizer que acho ridículo esse abuso profissional que rola o tempo todo, com todo mundo. Principalmente em profissões que parecem “fácil”. Parceria, brodagem, WTF?!

Quem aqui vai no médico fazer uma consulta e sai sem pagar, dizendo que vai ali se consultar com mais um ou dois médicos, pra ouvir opiniões e depois, se gostar do diagnóstico, paga pela consulta?! Isso é só um dos inúmeros exemplos. E dos mais simples.

Em contrapartida, quem aqui já não encontrou um profissional X  (insira aqui qualquer profissão) num evento social ou sei lá o quê, e resolveu pedir uma dica, tirar uma dúvida, fazer uma consultinha rápida, aproveitando a ocasião?! PELAMOR, PAREM COM ISSO!

A partir do momento que eu paro pra pensar no objeto que você precisa, na solução mais bonita e funcional pra sua marca, no nome do seu evento, na cor da fita que vai embalar a caixa do seu produto, eu já estou trabalhando, criando, desenvolvendo, juntando minhas inúmeras referências visuais e conteúdo adquirido ao longo de muitos anos, para realizar o meu trabalho da melhor forma possível. É isso o que sei fazer com maestria: Soluções de comunicação visual. Eu vivo disso e pago minhas contas com o dinheiro investido pelos meus poucos e fiéis clientes, que me contratam porque confiam no que digo que posso oferecer. E olha, eu ofereço. E faço. Inclusive de graça, quando quero e acho válido.

E eu poderia aqui descrever inúmeras situações ridículas e embaraçosas pelas quais já passei. Aliás, no mercado de criação isso acontece MUITO. Pegam algumas agências que topam entrar na concorrência, pedem um mix de idéias, fazem uma gambiarra com a cor da primeira, a tipografia da segunda e a ilustração da terceira, e tcharam, contratam uma quarta mais baratex pra compilar tudo e fazer um lindo (só que ao contrário) Frankstein.

Eu não sou da publicidade, não tenho agência que ganha milhões em comissão de veiculação, entre outras coisas. Eu sou apenas uma pobre designer latina americana sem dinheiro no bolso (competente e com idéias muito boas, disso tenho certeza).

Estou  falando aqui da minha história e ela aponta apenas para o meu umbiguinho. Mas sei que a “putaria” acontece nas mais diversas áreas. Quero pedir pra vocês que se coloquem por um segundo no lugar do profissional que está a sua frente e perceba o quão baixo e vil é esse tipo de atitude exploradora. Sejamos honestos, nem que seja apenas pra defender o que passamos uma boa parte da vida para aprender.

Aproveito para pedir desculpas publicamente para todas as pessoas que por algum motivo sentiram-se profissionalmente exploradas por mim. Isso está tão “natural” nos dias de hoje, que a gente faz sem nem sentir. Ou faz quando é uma criatura sem noção. Eu já fui um dia. Quem nunca?!

Mas aviso que estou atenta, comigo e com os outros, tal qual um corvo, na espreita: Reclinar-se-á nunca mais! 

___________________________

A imagem do destaque é obra do Morrisetsy,  ilustrador que conheci aqui.

As tirinhas são do Rômolo > “Malditos Designers”.

O corvo é um animal que admiro muito, por vários motivos, e que curiosamente é um onívoro que se alimenta da carne de outros animais. Principalmente daqueles indefesos ou que já estão mortos. ;o)

19 Comments on É só isto, e nada mais.

  1. carol
    14 de outubro de 2011 às 2:30 PM (588 dias ago)

    sou designer também, e antes de entrar no mundo corporativo, já tentaram e algumas vezes conseguiram me explorar tb. Acham que designer é um operador de mouse e programas, esquecem dos anos de estudo que nos levam a determinadas escolhas na hora de criar alguma peça.

    fora que tem um bando de gente desqualificada que se diz designer, cobrando pouco e usando templates e afins pré-moldados que diminuem ainda mais nosso valor para o mercado em geral. São poucos os que sabem o nosso verdadeiro valor…..

    entendo perfeitamente. Também trabalho de graça pros amigos queridos, e só….

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  2. kath Akyer
    9 de outubro de 2011 às 6:52 PM (593 dias ago)

    Fiquei orgulhosa e sem graça e também peço desculpas por já ter te pedido isso no encontro que tivemos no Rio.De fato é uma intimidade que não é dada ou que não cabe e que a gente acaba tendo a sensação de que não faz mal perguntar e pedir um “pitaco”(pensamos sem intenção de minimizar) para pessoa sobre o trabalho que ela faz tão bem, mas realmente é muito ruim para o profissional estar nessa situação quando naquele momento não é o trabalho dele ou você que pergunta não esta pagando por ele e tudo que esse profissional vai lhe dizer é resultado de um investimento sério para construir , pensou, aprendeu então merece respeito e crédito e não pode ser papo informal, é trabalho , e seríssimo!

    Ps: Desabafo e pedido de desculpas de quem já sentiu na pele também!

    Super beijo

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  3. Flá
    9 de outubro de 2011 às 6:18 PM (593 dias ago)

    Sei nem o que dizer, de tão emputecida-por-tabela que eu fico quando sei desses acontecimentos (e você tem razão, Dê, a coisa é generalizada e não tá fácil fazer o geral entender que precisa parar de querer valer mais que o trabalho do outro).

    Só lamento, porque quem troca seu trabalho de excepcional qualidade por um juntado baratinho só me dá pena.

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  4. Maria Edna
    9 de outubro de 2011 às 11:25 AM (593 dias ago)

    Adoro você e espero que este não seja o único NÃO da sua vida. Nunca me arrependi de um NÃO que tenha dado e até me orgulho deles. Parabéns.

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  5. Renata Costa
    8 de outubro de 2011 às 11:55 PM (594 dias ago)

    Eu fiquei orgulhosa! :)

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  6. Loo
    8 de outubro de 2011 às 11:04 PM (594 dias ago)

    Imagino que vc já conheça o divasca.blogspot.com (que mesmo que seja ficção, diverte pra burro)

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    • Denize
      9 de outubro de 2011 às 10:54 AM (593 dias ago)

      Conheço sim Loo, me divirto!

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  7. Sandra Andrades/SSA
    8 de outubro de 2011 às 8:38 PM (594 dias ago)

    Ai, Denize, isso de fazer consultazinha vira e mexe acontece comigo. Sou advogada, ainda que malmente exerça (estudo para concurso), e sempre tem um sem noção querendo conselho… Já perdi as contas das vezes que preferi passar por mal-educada a ter gente chata no meu pé me explorando. A última foi com uma amiga de minha mãe, que estava desesperada com um problema relativo a um bem, e eu fui cair na asneira de dar conselho. Devia era ter ficado de boca fechada porque a criatura agora liga todo santo dia atrás de mim, ainda que toda vez eu peça para dizer que não me encontro. Simancol e educação deveriam vender em farmácia para a gente poder dar jeito nesse povo!

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    • Denize
      9 de outubro de 2011 às 10:55 AM (593 dias ago)

      Sandra, a gente que gosta do que faz, sempre acaba palpitando na hora errada e se amarrando a favores infindáveis. E outro sem noção só aproveita, deixando a saia cada vez mais justa. Haja elasticidade para se livrar.

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  8. Andrea
    8 de outubro de 2011 às 4:02 PM (594 dias ago)

    Olha, não é fácil. Eu já estou acostumando com o seguinte: voce vai na empresa e oferece o melhor curso de português e/ou inglês para os funcionários. O povo diz que é caro. Aí você vê que a grana usada para comprar um café da manhã pro povo, ou para a cadeira que alguém senta lá, é maior, muito maior, do que seu curso.
    Muito difícil.
    Beijos, querida.

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    • Denize
      9 de outubro de 2011 às 10:56 AM (593 dias ago)

      Os valores estão todos errados Andrea. De tudo. Não tá fácil.

      Responder
  9. Tereza Marques Lima
    8 de outubro de 2011 às 12:44 PM (594 dias ago)

    Denize querida, adorei e já enviei para muitos amigos. Aqui às vezes tenho esse problema: me procuram para eu fazer versão de texto científico do português para o inglês e querem que eu cobre um preço ínfimo. No meu caso é que há profissionais que não se valorizam e outros que ainda estão na faculdade e se rotulam tradutores e aí cobram o mínimo. Certamente seu texto será re-traduzido por outros … e aí o custo sai mais alto do que se a pessoa tivesse enviado para um profissional gabaritado. Agora então com os tradutores mecânicos tenho visto coisas horrendas em tradução de sites etc.
    Bom, amei seu post, acho que você é ótima e te respeito muito! Beijos, Tereza.

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    • Denize
      9 de outubro de 2011 às 10:57 AM (593 dias ago)

      Tereza, sei bem como deve ser difícil na sua área. Tenho outras amigas tradutoras que sofrem a mesma coisa. Mas por isso escrevo e reclamo aqui. Quanto mais pessoas lerem e se “tocarem”, melhor. Obrigada por seu comentário.

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  10. Ana Silvia
    8 de outubro de 2011 às 12:43 PM (594 dias ago)

    Dê, eu lhe entendo… minha formação, apesar de não ser especializada em clínica, sou constantemente “assediada” para um conselho de graça… rsrsrs

    Agora vergonha própria e alheia eu tive quando meu primeiro marido arquiteto, numa festa de aniversário da irmã dele, pediu para o amigo dele dentista olhar alguma coisa dentro da minha boca…! Carái,véi! Eu me recusei (disse NÃO) e ele quase que abriu minha boca a força para mostrar para o amigo dentista dar uma opinião!!!
    Isso porque ele é arquiteto e sofria esse tipo de coisa e fez o amigo passar por esse constrangimento e PIOR: me fez passar por isso e dar um esporro para ele entender como estava sendo inconveniente…

    Ai, céus!

    beso

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  11. Gi (Ctba)
    8 de outubro de 2011 às 10:33 AM (594 dias ago)

    Dê, aqui é uma casa de arquitetos… Eu cresci meu vendo meu pai dando “idéias’, projetando casas e casas em almoços de domingo para “conhecidos” que minha mãe recebia com carinho e mesa farta.
    Levavam a idéia – que pela facilidade de meu pai – tornava-se real em meia hora e nunca mais voltavam.
    Tempos depois, a gente via a casa projetada pelo meu pai e construída por outro engenheiro…
    Cresci com este trauma, acho que é por isto que fui para área acadêmica!!!

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    • Denize
      9 de outubro de 2011 às 10:57 AM (593 dias ago)

      Arquiteto, engenheiro e decorador então, são os profissionais mais assediados em eventos de ocasião. Tenho dó.

      Responder
  12. Carla
    8 de outubro de 2011 às 7:57 AM (594 dias ago)

    “Dá uma ideiazinha aí, não custa nada…” Se ter boas idéias fosse fácil eu já estaria rica. O que eu sei, é que se a gente se valorizar, e valorizar nosso trabalho, seremos muito mais realizados. Eu sou que nem vc, tô aprendendo a dizer não. E sei que, mesmo correndo o risco de me tornar “antipática”para aqueles que só querem se aproveitar, o reconhecimento daqueles que me dão valor e dão valor ao bom trabalho vai ser muito mais gratificante para mim. Você é mais! Muitos beijos!

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  13. isabel
    7 de outubro de 2011 às 11:59 PM (595 dias ago)

    apoiado, rainha! cortem-lhes as cabeças! beijos!

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  14. Renato
    7 de outubro de 2011 às 11:35 PM (595 dias ago)

    Concordo plenamente. E pior, além de não receber, teve vezes que eu fui viajar pra longe, na esperança de pegar o serviço. Semana passada eu dirigi 8 horas e paguei 70 reais de pedágio para ouvir o tradicional “gostamos das idéias, mas no momento… crise… tenho que falar com o pessoal da agência… deixa seu cartão… “.

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